Obscenidades
Disclaimer: participámos na redacção dos ditos.
Manafon

Manafon estará apenas à venda no dia próximo dia 14 de Setembro, mas já se pode ouvir o primeiro single, Small Metal Gods, aqui. Entretanto podemos ler uma entrevista com o eremita Sylvian e sobre o seu novo método de composição finalmente assumido, o IMPROV, que como o próprio nome indica deriva da improvisação, no número de Setembro da revista WIRE. Vale a pena ler o que este tem a dizer sobre a humanidade e o processo criativo.
Manafon é o nome da aldeia onde o poeta galês RS Thomas vivia. Aviso à nevegação: Thomas não gostava de pessoas e Sylvian vive isolado do mundo 90% do seu tempo desde que, em 2005, se separou de Ingrid Chavez. Nota positiva: tem internet, apesar de tudo.
The Sartorialist

Acho que nunca ninguém estudou, pelo menos com a profundidade que este merece, o “visual totalitário”, chamemos-lhe assim, o que é realmente uma pena. Ninguém me convence, no entanto, que este não é um filão "com pano para mangas". Ocorrem-me estes pensamentos com a sofisticação própria da alta-costura devido às mais recentes imagens de Fidel Castro. Ora não é que o ex-déspota outrora sempre impecavelmente vestido, com a sua farda militar tão grave quanto reverencial, em todas as suas raras aparições públicas depois do abandono da vida activa, surge agora com um leve e gracioso fato de treino. Bem sei que o uniforme, depois de 50 anos de utilização contínua e continuada, pode ser cansativo, para não dizer outra coisa, mas o povo oprimido não merecia esta desconsideração. Pelo menos o "Grande Líder" ainda se mantém fiel ao seu visionário estilo "American Apparel".
MONTE PALACE






Andei por Pasárgada*
"Estas imagens têm como contexto uma viagem ao Brasil, em Abril de 2009, e pretendem ser uma reacção a uma fotografia de massas, quer pelo meio utilizado quer pelas histórias que veiculam. Todas são fotografias analógicas e todas resultam de uma utilização minimal, para não dizer frugal, da máquina fotográfica. Ao longo de duas semanas andei por Pasárgada, esse lugar tão ideal como real imortalizado pelo poeta brasileiro Manuel Bandeira, onde a existência é uma aventura. São, por isso e também, fotografias de viagem, mas em que esta constitui apenas um pretexto para uma reflexão mais prolongada sobre os diferentes processos narrativos que iniciamos quando decidimos sair do nosso espaço de conforto. A amostra destila quatro instantes que acrescentam um Brasil para além do óbvio e do imediato, ou pelo menos a impressão que me causou este país onde a Língua Portuguesa encontra uma coreografia que nós portugueses nunca vamos conseguir dançar. "
*“Vou-me embora pra Pasárgada” é o título de um poema de Manuel Bandeira, Pernambuco, 1886-1968.
PARA CONTINUAR A LER AQUI.
Extra ecclesiam nulla salus


[Fotogramas de 8½ de Federico Fellini, 1963]
GUIDO Tu saresti capace di piantare tutto e ricominciare la vita daccapo? Di scegliere una cosa, una cosa sola, e di essere fedele a quella, riuscire a farla diventare la ragione della tua vita. Una cosa che raccolga tutto, che diventi tutto proprio perché è la tua fedeltà che la fa diventare infinita. Saresti capace? (…)
Federico Fellini dizia que este filme não era para entender, que era para sentir, que seria inglório tentar encontrar um fio condutor ou uma filosofia que lhe estivesse subjacente, que era apenas um filme sobre um realizador atormentado e em crise de identidade, enfim, sobre a vida que era para ser vivida e não pensada ou sequer explicada. Este diálogo, no entanto, entre Guido-Mastroianni e Claudia-Cardinale, para mim, contém toda uma filosofia da existência, uma chave de salvação que, por ser impossível de alcançar, ou pelo menos por mim, serve apenas de justificação para todos os nossos comportamentos. Guido dizia ao Cardeal, no início do filme, que não era feliz, ao que este lhe retorquia por que razão pretendia ele ser feliz. Extra ecclesiam nulla salus. Não existe salvação fora da Igreja, dizia-lhe o Cardeal. Não era na Igreja, seguramente, que Fellini procurava a salvação, mas porventura na abnegação e na capacidade de renúncia, e este diálogo é bem esclarecedor a este respeito. Todos somos confrontados com isto diariamente, com esta escolha de caminhos, mas nem todos temos a coragem de escolher apenas um, ou pelo menos em definitivo. Cláudia, na fonte, oferecia-lhe a água purificadora, mas Guido tinha medo. Cláudia repetia-lhe, “Não sabes amar, não sabes amar, não sabes amar”. E não sabia. Mas salvou-se.
Fernanda, Canse-o

[Este requerimento chegou-me por email, anónimo, e desconfio que viole algum segredo de justiça]
Requerimento a Fernanda
Ó Fernanda, dado
que já estou cansado
do ar teatral
a que ele equivale
em todo o horário
de cada canal,
no noticiário,
no telejornal,
ligando-se ao povo,
do qual ele se afasta,
gastando de novo
a fala já gasta
e a pôr agastado
quem muito se agasta
por ser enganado.
Ó Fernanda, dado
que é tempo de basta,
que já estou cansado
do excesso de carga,
do excesso de banda,
da banda que é larga,
da gente que é branda,
da frase que é ópio,
do estilo que é próprio
para a propaganda,
da falta de estudo,
do tudo que é zero,
dos logros a esmo
e do exagero
que o nega a si mesmo,
do acto que é baço,
do sério que é escasso,
mantendo a mentira,
mantendo a vaidade,
negando a verdade,
que sempre enjoou,
nas pedras que atira,
mas sem que refira
o caos que criou.
Ó Fernanda, dado
que já estou cansado,
que falta paciência,
por ter suportado
em exagerado
o que é aparência.
Ó Fernanda, dado
que já estou cansado,
ao fim e ao cabo,
das farsas que ele faz,
a querer que o diabo
me leve o que ele traz,
ele que é um amigo
de Sao Satanás,
entenda o que eu digo:
Eu já estou cansado!
Sem aviso prévio,
ó Fernanda, prive-o
de ser contestado!
Retire-o do Estado!
Torne-o bem privado!
Ó Fernanda, leve-o!
Traga-nos alívio!
Tenha-o só num pátio
para o seu convívio!
Ó Fernanda, trate-o!
Ó Fernanda, amanse-o!
Ó Fernanda, ate-o!
Ó Fernanda, canse-o!
Princess Tinymeat

Julgava que era o único doido a ter um EP dos Princess Tinymeat, essa banda obscura dos anos oitenta formada por Binttii, uma personagem impossível de existir nos anos zero-zero, em que tudo é uma encenação, e que chegou a integrar os não menos obscuros Virgin Prunes. Mas eis que ontem à tarde, a caminho de casa, a ouvir a Rádio Oxigénio, algo que apenas faço quando o Pedro Ramos entra em delírio, alguém (?) lembrava a música "Angels in Pain". Não resisti e por isso aqui fica. A memória é uma coisa tramada. É o que dá ter sido "gótico", eh, eh.
Este momento

Chavela Vargas, a amiga mexicana, que afinal nasceu e era da Costa Rica, de Pedro Almodóvar, companheira de Frida Khalo e de Diego Rivera, entre outros, acaba de celebrar o seu nonagésimo aniversário.
Em entrevista ao El País Semanal, quando questionada sobre a época da vida com que ficaria se tivesse de o fazer, dispara um categórico "Este momento". E continua, "Sí. Estoy bien. Estoy centrada. No me he desbocado. Ni me siento más de lo que soy, ni menos tampoco. Estoy en un término justo."
Eu também ficava com este momento, obrigado, mas não tenho noventa anos.
O resto é ruído
[Mahler e Strauss à saída da ópera de Grätz em Maio de 1916 numa fotografia de Gilbert Kaplan]
Alex Ross é crítico de música na New Yorker e, em 2008, foi seleccionado "MacArthur Fellow".
Para quem não sabe, os MacArthur Fellowships são atribuídos anualmente pela MacArthur Foundation sob a bastante esclarecedora estratégia de comunicação "Out of the Blue — $500,000 — No Strings attached". Ou seja, todo os anos, entre 20 e 30 pessoas recebem quinhentos mil dólares, sem qualquer compromisso que não seja continuarem a ser eles mesmos. Naturalmente, todos são escolhidos pela sua criatividade e originalidade bem como pelo seu potencial para contribuírem de forma importante para o futuro (sic). Desde 1981 até 2008 foram seleccionados 781 "Fellows" e na longa lista encontramos nomes como Merce Cunningham, Thomas Pynchon, Ornette Coleman, Bill Viola, Mark Strand, Harold Bloom, Susan Sontag, entre outros ilustres mais e menos conhecidos. Desconheço se existe algum estudo sobre o impacto deste programa, mas parece-me óbvio que a taxa de sucesso deverá ser bastante inferior a 100%. Os actos falhados serão seguramente compensados pelos casos de sucesso que serão o equivalente à lotaria de Natal, com a única diferença que a sorte não é um factor determinante.
Quem tem uma pergunta?*

Apesar de europeísta por convicção, a relação da União Europeia com os seus cidadãos recorda-me a história que Jean-Claude Carrièrre regista na sua Tertúlia de Mentirosos, a propósito de um eremita cristão, com os pés em sangue e a cabeça a arder pelo sol que corria sem destino pela areia e gritava a todos os ecos do deserto, “Tenho uma resposta! Tenho uma resposta! Quem tem uma pergunta?”
Enquanto os cidadãos europeus não se levarem a sério nesta qualidade e não utilizarem o principal instrumento de influência de que dispõem, os partidos políticos continuarão a assobiar para o lado e a cidadania europeia não deixará de ser, nesta medida, mais do que um mero expediente burocrático destinado a conferir uma aparência de legitimidade a um sistema político que carece desesperadamente de mais participação cívica e democrática. Mais do que uma pergunta, os cidadãos europeus deveriam ser convidados a apresentar uma resposta, mas para isso, no dia 7 de Junho, não se podem demitir das suas responsabilidades.
* Artigo sobre as eleições europeias para continuar a ler no próximo número da Revista Obscena que será apresentado na Livraria Trama, na próxima 3.ª-feira, dia 5 de Maio, o meu mês.
Kwaidan

Screenshot daqui.
Há filmes assim, que se nos colam à pele depois de terem estado em lista de espera durante meses, talvez anos, apesar das sucessivas recomedações de alguns amigos que são uma fonte inesgotável de curiosidades, para utilizar um eufemismo, como bem sabemos. Assim, Kwaidan, de Masaki Kobayashi (1916-1996), prémio especial do júri de Cannes em 1966, que aparece, onde mais poderia ser, na Criterion Collection.
Quatro histórias de fantasmas, segundo tradicões japonesas, com narrativas tão delirantes como intensas e um trabalho de fotografia e cenografia quase operático, que dificilmente classificaria de terror mas que, pelo menos, me vão deixar inquieto hoje à noite.
Só espero que não neve.

Keiko Kishi como The woman in the snow.
Susanboylização

O mais recente vídeo viral, que conta já com mais de 70 milhões de visualizações, em menos de duas semanas (?), vem provar três coisas: primeiro, que as pessoas adoram que quem humilha seja humilhado; segundo, que preferem o talento anónimo ao institucional; terceiro, que a esperança vende, e muito.
Irreparável
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IRREPARÁVEL*
como eu não sei rezar, só queria mostrar
meu olhar, meu olhar, meu olhar
Não, o belo não é óbvio. Nem evoca necessariamente a harmonia ou a pureza. Talvez convoque, sim, o absoluto, o uno. E revela a imanência. A imanência de algo a que (sabendo ou não) estamos ligados. Neste sentido, o belo é religioso porque re-liga. A revelação é feita através de uma fina passagem, uma porosidade, uma permeabilidade que pode acontecer, por exemplo, ao contemplar as fotografias desta exposição.
Não, não vale a pena ter cautela ou usar alguma outra rotina de distanciamento. Enquanto produzimos o inevitável julgamento estético, as protecções vão-nos sendo retiradas. As erudições, os conceitos, as definições. Permanece apenas o estremecimento. Mas é justamente aí, nessa suspensão, que desvelamos a imagem e acedemos à outra realidade – mais ampla? Mais luminosa?
Não, não é que não seja possível encontrar a narrativa de cada fotografia desta exposição. Podia acontecer que as narrativas se relacionassem numa arquinarrativa interminável, pois todas se gerariam. Mas podemos antes perseguir uma ideia que nos entregue uma das chaves que nestas fotografias abriu a passagem por entre a materialidade das coisas.
Toda a obra de arte é um tiro no véu da realidade. A bala atravessa (a dor d)as coisas e choca com um limite. No movimento do choque – por um instante – a fixidez da terra torna-se aérea ou fluida e é possível vislumbrar o contorno dessa coisa. Quebrar o aparente continuum de uma realidade sem fim. Interrogar o limite. Isso é uma exposição. Ou um abismo.
Nesta exposição há treze maneiras de chocar com as coisas, interrogar o limite e atravessar a dor. Primeira: não atravessar, mas ficar ao lado dela (Homem sem Qualidades, 2003). Segunda: partir à sua procura, como quem desce as escadas, com alegria (Quartier, 2008). Terceira: olhá-la estupefacto e vê-la a aproximar-se (S/Título, 2006). Quarta: esperar por ela (Boa Vista, 2006). Quinta: amá-la (Boa Nova, 2009). Sexta: carregar com ela, com fervor (Antígua, 2006). Sétima: fundir-se com ela (Avó, 2007). Oitava: manipulá-la (Joker, 2004). Nona: entregá-la ao destino (Playing, 2004). Décima: observá-la (Mata, 2008). Décima primeira: reconciliar-se com ela (Palermo, 2005). Décima segunda: levá-la consigo devagarinho e em silêncio (Commuters, 2005). Décima terceira: comungar com ela o mistério (Oração, 2003). Há ainda mais uma maneira: senti-la e sorrir (S/Título, 2005).
Chocar com o limite, atravessar a coisa, interrogar a dor.
Claro que tudo isto é uma interpretação privada, uma construção, uma ficção. Uma histerese.
Não, não vem no Dicionário Imperfeito da Agustina, mas isso é o menos importante porque a aproximação ao conceito é perfeita: “o laço da ficção que gera a expectativa é mais forte do que todas as realidades acumuláveis. Se ele se quebra, o equilíbrio entre os seres sofre grave prejuízo.” E isto podia ser uma variante de histerese.
Não, não nomeei a chave, mas creio que ela fica na intersecção entre o choque e o limite. O choque (o olhar) é vertical, o limite é horizontal, a sugerir a imagem da cruz... encontrei-a em todas as fotografias desta exposição, sem excepção. Irredutível. Do lado de cá, o fotógrafo está no ponto de conflitualidade essencial entre uma realidade velada à espera de ser revelada; o fotógrafo que está no ponto de encontro entre uma visão e a afirmação dela.
Não, não podemos sair sem celebrar a beleza (salvífica?) das fotografias desta exposição. Com Agamben, ao definir o amor (estará assim tão longe do belo?) “ver simplesmente algo no seu ser-assim: irreparável, mas nem por isso necessário; assim, mas nem por isso contingente”. Irreparável.
Helena Simões
* Para a exposição de fotografia – Histerese, de Rui Hermenegildo – Trem Azul Jazzstore, de 12 de Março a 12 de Abril de 2009.
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