sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Caos calmo



Num filme sobrecarregado de ternura, Nanni Moretti vê-se subitamente confrontado com a morte da sua mulher enquanto salvava uma anónima de se afogar numa praia. Incapaz de lidar com a aparente culpa perante a sua filha de dez anos, o viúvo Moretti entrega-se a um exercício silencioso de purificação no jardim em frente à escola da petiza. Aos poucos, o paternal Moretti vai-se transformando no epicentro redentor dos problemas das pessoas que o rodeiam, conhecidos e desconhecidos, acabando por alcançar a sua própria redenção pessoal através desta missão salvífica involuntária. A sua Itália natal condenou-o pela cena de sexo explícito com Isabella Ferrari que contraria o seu lado mais contido e familiar. Sexo à parte e uma banda sonora, no mínimo, estranha, o filme justifica-se pelas inúmeras personagens que se vão construindo, aparecendo e desaparecendo, algumas quase sem falar, como Kasia Smutniak que, em abono da verdade, também não precisava de o fazer, ou outras que acrescentam à narrativa as situações mais divertidas e a salvam da banalidade: o Director de Recursos Humanos com consciência, que propõe uma modelo de governação para a empresa baseado na Santíssima Trindade; a mulher do Director Executivo demissionário que padece de uma doença invulgar que a faz dizer as frases mais ordinárias nas situações mais inusitadas; ou ainda a descontrolada irmã da falecida, actriz grávida do encenador que personifica a consciência de Moretti. Um filme sobre a perda que revisita os lugares comuns transformando-os em oportunidades.

Três em cinco.
Publicada por Rui Hermenegildo à(s) 18:48 |  

3 comentários:

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